Viver é equilibrar pratos

Eu já queria escrever um texto sobre este assunto há tempos. Mas foi ontem, ao ler uma publicação de uma escritora que eu admiro muito, a Eliane Alves Cruz (@elialvescruz), que desejei mais do que nunca escrever sobre como é difícil "equilibrar os pratos" da vida.

De forma bastante generosa, ela compartilhou com seus seguidores do Instagram o que chama de "anatomia" do seu dia, buscando mostrar a sua rotina diária de cuidados consigo mesma, com a casa, com os filhos e a escrita. Sabiamente nos aconselha a fazermos o que precisa ser feito, a tirarmos da nossa própria história a inspiração para a escrita, além de descansarmos quando preciso. Acredito que é por aí mesmo que devemos seguir, mesmo que seja tão difícil colocar este plano em prática.

Sempre lembro daquela imagem do artista que possui pratos girando sobre hastes colocadas nas duas mãos, no topo da cabeça, num dos pés, nos ombros e tantas outras partes do corpo possíveis. Como ele consegue tal proeza, eu nem imagino. A sensação ao vê-lo é de que, a qualquer momento, algum dos pratos irá cair. Ou todos eles. Mas ele não deixa isso acontecer. Está sempre se desdobrando para não deixar um sequer se quebrar.

Eu me vejo no lugar deste equilibrista. E também vejo muitas outras mulheres que precisam fazer verdadeiros malabarismos para darem conta de tantas exigências que se impõem em nossas vidas. Não é incomum, ao conversar com uma mulher, perceber similaridades das nossas dificuldades com as dela. Somos extremamente sobrecarregadas de afazeres e muitas vezes nem o descanso nos é permitido. Choramos de exaustão.

Já perdi a conta de quantas vezes me vi dividida entre limpar a casa e sentar para escrever. Ou entre atender ao chamado de minha filha e terminar um relatório para o trabalho. Ou tudo isso junto e muito mais! As palavras de ordem são equilíbrio e organização, para que se consiga fazer tudo o que é necessário fazer.

Mas confesso que isso não é o suficiente para mim. Não quero fazer só o que é preciso. Quero também me dedicar aos meus desejos sem sentido, a uma vontade sem hora marcada, a um não-ser-alguma-coisa que se contrapõe com todos os papéis que precisamos exercer. Às vezes, quero ser nada. Num surto de egoísmo, ou de cansaço, grito que não quero títulos. Não quero nem um nome. Quero ser silêncio, aquele que não se chama, ao mesmo tempo em que a minha maior vontade é pegar todos os pratos que equilibro e lançá-los com força ao chão.

Como aquilo que se quebra nunca mais torna a ser como era, seguro a minha vontade e os pratos. Olho pra eles com carinho e escolho os que merecem ser girados. É fato de que não damos conta de tudo. Nem temos que dar! Alguém nos disse que deveríamos, que conseguiríamos. Cabe a nós nos lembrarmos da verdade. Não somos equilibristas. Nem todas temos esse fantástico talento artístico. Somos mulheres, apenas e tanto.

Seguramos nossos filhos, nossas dores, nossos relacionamentos, nossos choros, nossos pais, nossos sonhos. Às vezes é preciso soltar. Deixar ir. Deixar que as pessoas caminhem por conta própria e que as coisas aconteçam (ou não) sem a nossa intervenção para que as mãos fiquem livres e sejam dedicadas ao que mais importa naquele momento. Definir as prioridades é outro grande desafio, assunto para uma outra conversa. Por agora, gostaria apenas de abrir os braços e sair correndo por aí, com as mãos abertas ao vento, livre de pratos e de culpas.



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