Vida pandêmica

14 de março de 2020. Lembrarei sempre da data em que uma nova era se inaugurou em minha vida. Uma semana antes, estávamos comemorando o aniversário de minha filha em um restaurante, cercadas de familiares e amigos. As notícias já eram assustadoras. Um vírus mortal assolava o mundo, mas tudo parecia tão distante. De repente, ele chegou até a nossa realidade. Vieram as orientações: fique em casa, use máscaras, lave as mãos, borrife álcool nas superfícies. Afastem-se uns dos outros. Qualquer um pode portar o vírus, mesmo sem apresentar sintomas.

O primeiro sentimento que surgiu foi o medo, por mim, pelos meus, por todos. Eu não imaginava como seria se eu adoecesse ou se minha filha ou minha mãe fossem acometidas por aquela doença. Comecei a trabalhar em homeoffice, sendo este um privilégio que muitos trabalhadores não tiveram. Respirei aliviada por isso. A princípio, imaginei que eu teria um pouco de descanso, já que não passaria horas no rotineiro trânsito de ida e volta do trabalho. Ledo engano. O trabalho invadiu todos os espaços e todos os horários.

Permaneci as duas primeiras semanas completamente isolada com a minha filha, sem ir sequer ao portão. Aqueles foram os dias mais longos da minha vida. Quando os mantimentos começaram a faltar, era hora de encarar a temida ida ao mercado. Um dia antes eu nem dormi. Madruguei na porta do estabelecimento e fui a primeira a entrar. Nunca tinha sentido tanto temor. Fui incumbida de três listas, a minha, a da minha mãe e a da minha tia. Uma verdadeira saga. Voltei muitas horas depois, exausta física e emocionalmente, ainda tendo que limpar tudo com álcool.

Depois vieram as aulas on line, a ansiedade, a tristeza e as farpas da convivência em tempo integral com uma pré-adolescente. Quase quatro anos antes, meu pai havia partido de sua existência terrena. Eu sentia uma falta absurda dele. Depois de sua morte física, eu me ocupei de tantas formas que o luto foi guardado no fundo da gaveta. Os estudos e a pesquisa do mestrado adiaram a dor. Outros projetos surgiram e eu abracei como meio de não encarar a dura falta que meu pai fazia.

Mas, durante a pandemia, por excelência este tempo de tantas ausências, o que estava escondido se agigantou e explodiu. Uma tristeza avassaladora tomou conta da minha vida. Permaneci bastante tempo na cama, cabelos sem pentear, improvisando as refeições por completa falta de vontade de continuar. Eu queria voltar no tempo em que podia correr para o colo de papai, em que a vida não era pandêmica e podíamos estar juntos.

Fui ao fundo do poço. Chorava durante horas por dias. Até o momento que resolvi pegar papel e caneta e escrever o que eu estava sentindo. Quando acabei, tinha escrito oito páginas, lavado a alma com lágrimas e expurgado uma boa parte da tristeza. Descobri na escrita uma corda lançada para me socorrer. Agarrei-me a ela e fiz muita força para emergir. Eu queria viver e a escrita me salvou.

E ela continua me salvando todos os dias. Já passamos de um ano desde o dia 14 de março de 2020, e a pandemia não acabou. Continuo vivendo o medo e todo o drama que é saber que mais de 350 mil pessoas já morreram de covid no nosso país. Alguns amigos partiram sem despedida. Muitos estão sofrendo o luto pelos seus. Tanta gente está vivendo a barbárie da fome.

Não consigo ser feliz nesse caos. Mas tento ficar de pé. Busco pequenas alegrias nas palavras dos amigos, no afago dos que estão próximos, no colo dos meus amores. Estou viva. Estamos. E isso já é motivo suficiente para continuar. A vida não é mais como antes. Acredito que nunca mais será. Mas permaneço confiante de que "o sol há de brilhar mais uma vez" para mim, para você e para todos os sobreviventes. Isso tudo vai passar! Até lá, don't panic!




19 visualizações2 comentários

Posts recentes

Ver tudo