Tributo

Alguém nos procurou para dizer que ela precisava de nós, que poderíamos aliviar o seu sofrimento. Aquele era mais que um simples chamado. Era um pedido de socorro. Irrefutável. Inadiável. Assim compreendemos e nos lançamos em sua direção.

Ainda me lembro de quando meus pés pisaram naquela casa pela primeira vez. A morada ficava em uma rua conhecida, por onde muitas vezes já havíamos passado. Mas não poderíamos imaginar que por trás daquelas paredes rabiscadas estavam ela e a sua dor. Aos pés do morro, não foi difícil encontrar o seu endereço. A casa de Totoca era passagem e também destino de muitos que procuravam colo e cuidado. A construção era pequenina, muito simples, com paredes sem reboco e chão de cimento. Havia apenas uma porta, a da cozinha, que dava direto para a viela principal da comunidade.

Eu fui a primeira a entrar e logo me deparei com aquele corpo franzino, acomodado numa caminha, no canto do único cômodo que havia além da cozinha. Planejaram um andar superior para aquela casa, mas a falta de recursos foi empecilho. Sem destino, ali no meio do quarto-sala, havia uma escada de alvenaria. Degraus insólitos ansiavam serventia.

Meus olhos percorreram todo o ambiente, a escassez despertava a minha atenção, mas foi num largo sorriso que eles se fixaram. Aceitei o convite e me aproximei do seu leito. Havia mais dentes que lábios, mais ossos que carne. Imediata empatia. Ela estava há meses sem mirar outras paisagens, vendo a doença consumir o seu próprio corpo. Enquanto eu imaginava como seria ocupar aquele lugar, ela percebeu a minha compaixão e tratou de me confortar.

- Está tudo bem! - ela disse.

Na falta de cadeiras ou bancos, a escada ganhou utilidade. Tornou-se o meu assento e também amparo para os tantos apetrechos necessários à assistência. Do alto de uns poucos degraus, pude acompanhar a consulta da médica, a avaliação minuciosa da enfermagem, a realização dos imensos curativos. Eu observava o árduo trabalho de distinguir e apartar os pedaços mortos de seu corpo vivo. Testemunhava suas expressões e percebia como a dor, por mais intensa e cruel que fosse, não tinha apagado o brilho de seu olhar.

Entre um procedimento e outro, ela me chamou para perto. Disse que gostava muito do meu nome e que tinha uma história para me contar. No dia seguinte, eu estava lá, com os meus ouvidos a postos. Eles recolheram muitas lembranças, algumas lágrimas e gargalhadas também. Saí da casa carregando um tesouro: a história de vida de Totoca.

Na semana seguinte, retornamos como combinado. Seu estado de saúde era cada vez mais crítico. A vida se esvaía por entre seus dedos. O câncer parecia vencer a luta sobre o seu corpo, mas não sobre a sua mente. Todas as vezes em que nós saíamos de sua casa, voltávamos no carro em completo silêncio. Secretamente cada um de nós previa que aquela seria a nossa última visita. Algumas vezes, confesso, esta foi a minha oração.

Inacreditavelmente, na semana seguinte nós retornávamos e ela estava lá, viva. Resistia a todas as dores. Sustentava a sua existência como alguém que carrega um pesado fardo. E na semana seguinte, a mesma coisa. Quanto mais dor ela sentia, mais força ela tinha.

Num dia, ela pediu mais uma vez para conversarmos. Não podia esperar. Tinha que ser naquele dia. Os outros foram embora e eu fiquei. Mirando meus olhos, ela confessou:

- Barbinha, estou com medo...

Abandonei todas as teorias, toda a técnica que deveria reger as minhas ações e disse a ela:

- Eu também estou.

Ali ela respirou aliviada e conversamos sobre nossos temores, nossas angústias, nossas esperanças. Naquele momento, ela precisava de mais que uma profissional. Ela precisava de um ser humano que sentisse como ela. E eu senti. Depois de uma longa conversa, atravessei a porta para ir embora olhando ela acenar a sua mãozinha esquelética, dizendo adeus. Como da primeira vez que a vi, ficou marcado em mim o seu sorriso.

Dois dias depois, recebi uma mensagem. Totoca havia partido. Eu chorei, sentindo imensa gratidão pela oportunidade de tê-la encontrado nesta vida. E também por ter aprendido com ela que até mesmo as escadas que não levam a lugar nenhum podem se tornar pontes. Sentada naqueles degraus fui alcançada por ela, por suas histórias cheias de tudo o que nos torna humanos. Hoje guardo comigo suas memórias como um tributo à sua existência.




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