Sobre ser amadora

Há dezesseis anos sou assistente social e venho somando experiências de trabalho em diferentes áreas de atuação. Depois de um bom tempo mergulhada na prática, voltei à escola e cursei o mestrado. Busco constantemente o conhecimento, seja na academia ou fora dela. Ainda que aprender seja ação infinita, no terreno do Serviço Social piso com a segurança proporcionada pelos anos de trabalho profissional.

No entanto, enquanto escritora sou amadora, no sentido de iniciante e também de apaixonada. Desde sempre escrevo, mas é recente o meu desabrochar na escrita literária. É verdade que, quando iniciamos qualquer novo empreendimento, desejamos já sermos veteranos para fugirmos do grande incômodo do não saber. Queremos logo dominar todas as sinuosidades do caminho escolhido, como se pudéssemos esticar a estrada e tornar o percurso entre o nada e o tudo algo linear e seguro. Não, não podemos. Há curvas perigosas em tudo o que é novo e talvez estejamos enganados sobre o destino.

Ninguém nunca alcança o tudo. É preciso avançar com cautela e compreender que todos estamos em pontos diferentes dessa estrada. Nós vivemos e somos o processo. E nada mais consolador do que aceitar a nossa incompletude. Ela permite que, não sabendo, possamos aprender.

É como colocar uma capa, a capa do aprendiz. Tal qual na ficção dos super-heróis, esta cobertura me garante poderes. Não se trata de algo sobrenatural. A maior vantagem que ela me confere é me fazer recordar da minha humanidade. Sob a capa, torno-me aquela que não tem medo de errar. Não tenho medo de parecer ridícula, ainda que este pensamento me passe pela cabeça às vezes. Mas não dou bola para ele. Há momentos em que sou invadida pela insegurança, pela ausência de certezas. É aí que eu me lembro que é preciso colocar primeiro o pé. Depois vem o chão.

Certamente eu não imaginava que aos 38 anos estaria iniciando um blog. Já ouvi algumas críticas subliminares sobre isso. Há pessoas que desaprovam, talvez pela imagem que esperam de uma blogueira não ser a minha. Mas, perdoem-me a sinceridade, eu não estou pedindo aprovação a ninguém. Na verdade, demorei muito tempo para obter a minha própria autorização para ser escritora.

Para chegar até aqui, passei por um processo intenso de autocrítica. Conheço bem um olhar de reprovação vindo do espelho. Já sofri com a autossabotagem. Até que resolvi me questionar: como posso ser incentivadora de outras pessoas e tão castradora de mim mesma? Como posso ser apaixonada pela liberdade criativa de tantos artistas e invalidar de forma tão dura as minhas próprias criações?

Aos poucos venho me libertando das grades que eu mesma fabriquei. Venho me descobrindo artista e me amando assim. Percebi que o melhor dessa história toda não é o que a escrita proporciona a mim. E olha que ela é muito generosa! A satisfação de reunir no papel ou na tela todos aqueles fragmentos de ideias que flutuam na minha mente é algo tremendo. Escrever já vale a pena por este motivo, pela oportunidade de me expressar. Mas, para além disso, descobri que a minha escrita pode colaborar para que outras pessoas encontrem na minha voz literária a sua própria voz.

Tenho recebido retornos incríveis! De fato, mesmo que o universo dos meus leitores seja ainda pequeno, saber que as palavras que escrevo fazem sentido para alguém já é incentivo para continuar. Quando estou descrente de mim mesma, eu me agarro a esta bóia que me livra do afogamento no mar da insegurança. Sigo avançando por suas águas revoltas, não como uma nadadora profissional, que sabe exatamente o que está fazendo. Vou como a amadora, que a cada braçada vai se descobrindo, conhecendo e se apaixonando pelo mar.



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