Pre-cognitio

Atualizado: 29 de jan. de 2021

Não faz tanto frio, ainda assim eu me enrolo na manta e fico a observar o verde da mata através dos limites envidraçados da sala. Estou encolhida, ocupando apenas um cantinho do sofá naquele imenso ambiente de cores claras, indiretamente iluminado. As disfarçadas lâmpadas amarelas pouco concorrem com a luz natural do dia cinzento. Tento identificar que tempo é aquele. Sinto-me em um corpo diferente, mais cansado, enquanto enxergo cabelos brancos e um rosto enrugado refletidos na porta de vidro. 

Ouço trovões. O barulho da chuva que cai me desperta de meus pensamentos e chama a atenção para o que há por trás da minha própria imagem. Admiro a grama bastante verdinha e bem aparada, que se estende até as grandes árvores, próximas umas das outras, as quais a chuva alegremente toca em todas as partes. Entre o extenso gramado molhado e a cortina de árvores que inaugura a mata fechada não há fronteiras. Algumas vezes tive medo desta proximidade, da ausência de anteparo entre o doméstico e o selvagem. Hoje não. Percebo que a mesma falta de limite que permite a invasão também facilita a fuga. Justamente a ausência de obstáculos é o que consente a minha entrada, a qualquer tempo, naquela floresta. Não sei se algum dia ousaria me aventurar. Mas poderia. 

Em minhas mãos tenho um livro que ainda não foi escrito. Já ultrapassei a metade de suas páginas com minha leitura e o seguro com tanto cuidado que me parece ser uma boa obra. Não ouço vozes ou qualquer outro som além da natureza que se apresenta majestosamente poderosa. A chuva engrossa e o vento produz um zumbido forte nas reentrâncias da casa. São como um chamado a observar de perto o espetáculo que acontece lá fora. O cheiro da mata banhada pelo aguaceiro me tira do conforto do sofá e me atrai para a varanda. Ali também é amplo, há quatro grandes pilares distribuídos por sua extensão e uma convidativa namoradeira, de onde eu poderia assistir ao temporal.

Eu sempre gostei de ver as tempestades. Trovoadas e raios, que a tantos amedrontam, me fascinam. Cada estrondo vindo do céu me faz tremer de excitação. Sinto a proteção de minha madrinha, de quem herdei o nome, aquela que é senhora das almas e dos relâmpagos, ora santa casta ora orixá guerreira. Neste momento, é a sua fortaleza que me impulsiona. Não me contenho e avanço descalça sobre o gramado, no ritmo que minhas pernas permitem. Algo na floresta me chama. Sou observada por dois olhos brilhantes em meio às sombras das árvores. A densa chuva não me permite identificar a quem pertencem. Mesmo assim, eu me aproximo. Há algo de familiar naqueles olhos e eu não sinto medo.

É quando estou próxima que percebo. Sou eu. Uma versão mais nova de mim, mais corajosa, a que se arrisca e arrisca a todas as certezas para se aventurar em seus sonhos. Um corpo livre, sobre o qual recaem cabelos longos, derramados em cachos. Ela é a que consegue se transportar pelo tempo, visita lugares que estão por existir e experimenta ser o que deseja. Ela-eu me chama. “Vem”. E eu vou… Adentro a mata em sua companhia, de mãos dadas com o meu passado. É desta forma que eu vim parar aqui neste lugar que ambienta meus sonhos e que acredito que um dia se tornará o meu lar.


***

Este foi o meu primeiro texto escrito em 2021, para o Clube da Escrita. Larissa Campos nos desafiou a escrevermos algo que estivesse relacionado com o nosso lugar predileto. "Mas eu tenho tantos lugares prediletos", pensei. Então me recordei de um lugar com o qual sonho há anos. De tempos em tempos, faço uma visita inconsciente. Esta visita é tão real e carregada de tanta paz que comecei a pensar que se trata de uma visão do futuro, uma precognição (do latim pre-cognitio). Quis colocar em palavras o que vejo e o que eu sinto em meu sonho, para que você também conheça o meu lugar preferido.


“Cada lugar é, a sua maneira, o mundo” (Milton Santos)


E aí, o que achou do texto? Fico curiosa pra saber. Deixa um comentário e acaba com a minha curiosidade! ;)



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