Mulheres têm medo

Atualizado: 26 de mar. de 2021

Mulheres têm medo. Não que homens não o tenham. Eles também têm medo, e muito. Mas, em geral, as mulheres têm mais facilidade em reconhecer. Talvez por isso o medo seja tantas vezes relacionado como característica do feminino, coisa de maricas. De acordo com o dicionário, maricas tanto pode significar "indivíduo do sexo masculino que se comporta com modos femininos; efeminado", quanto pode corresponder a "aquele que é dado a ter medo, que facilmente se acovarda; medroso, covarde". Pois é… Parece que medo é realmente coisa de mulherzinha. Será?

Mulher tem medo do escuro. Eu diria que não é exatamente a escuridão que ela teme, e sim o que se esconde no breu. Quando as luzes estão apagadas e a mulher se percebe imersa na noite, ela poderia seguir tranquila, não fosse pela possibilidade de haver alguém escondido nas trevas. Se ela percebe que há outra mulher acompanhando seus passos, respira aliviada e o medo diminui. Se for um homem, ela se apavora.

Mulher tem medo do próprio corpo. Ela vive uma relação de amor e ódio com o espelho. Há dias em que não o larga. Dá inúmeras espiadinhas para ver se a maquiagem continua firme, se está tudo no lugar, se o cabelo permanece apresentável. Também há dias em que não suporta mirar a própria imagem. Os olhos percorrem seu reflexo e só encontram defeitos. Então resolve esconder-se de si e ignorar que possui o corpo mais fantástico que poderia ter, um corpo vivo.

Mulher tem medo de ficar sozinha, como se a sua própria companhia fosse algo insuportável. Esquece que chegamos neste mundo sozinhos e partimos dele da mesma forma, momentos de experiência completamente individual. Não ter alguém com quem dividir a vida é assombroso para muitas, o que as leva a manter relações inaceitáveis em nome de um sobrenome, de uma aliança no dedo, de um laço de sangue, de uma promessa vazia, ou apenas de uma cama preenchida.

Mulher tem medo de não corresponder. Ela se preocupa com as roupas que usa, temendo não estar vestida adequadamente para cada ocasião. Ela faz sexo com a luz apagada porque teme que a aparência de seu corpo não desperte desejo. Ela se esmera ao máximo para cumprir todos os papéis que lhe foram atribuídos para que não digam que ela falhou. Ao deitar-se na cama à noite, não está satisfeita pelo tanto que realizou. Está exausta e culpada por aquilo que não conseguiu. Não percebe que é tudo sobre as expectativas alheias e não sobre ela.

Mulher-mãe tem medo de não conseguir ser a mãe que os filhos precisam. Ela, desde o início, tem receio de errar. Perde noites de sono preocupando-se se vai conseguir parir. Porque até mesmo o parto deixou de ser dela e passou a ser um evento protagonizado por outros. Quando enfim a criança nasce, a mulher é tomada por medos ainda maiores já que filho é sempre da mãe, ainda que tenha pai. É ela que amamenta e se apavora ao perceber que durante alguns meses seu corpo será a única fonte de alimento para seu filho. Mais tarde, se o pequeno cai no parquinho, a primeira pergunta que fazem é: “Cadê a mãe desta criança?”. Todas as responsabilidades, inclusive as emocionais, invadem e inundam a existência da mulher-mãe, até quase o seu afogamento. Ela faz de tudo pelos filhos e tem medo de falhar. E ela vai falhar. Não tem jeito, principalmente se estiver sozinha nesta missão. Ela tenta ocupar aquele lugar vazio, o do pai, acreditando que assim evitará o sofrimento do rebento. Em vão. É certo de que, apesar de todo o empenho, ela não deixará de ser assunto fundamental na terapia do seu filho.

Mulher tem medo dos seus sonhos. Quando um desejo surge em seu íntimo, ela primeiro tenta sufocá-lo porque está mais acostumada a ouvir as vozes que vêm de fora do que ouvir o seu próprio coração. O discurso dominante, que entra por nossos ouvidos, impregna as nossas mentes e é reproduzido por nossas falas, não reconhece a potência feminina. Reduz a mulher a algo ou alguém muito aquém das suas capacidades. Nascer, crescer, casar, ter filhos, envelhecer e morrer não comporta todas as possibilidades de ser mulher. Quando ela se dá conta disso, ela decide tomar as rédeas da própria vida, mas continua com medo, de não estar fazendo a coisa certa. Todos os dias a insegurança lhe visita e todos os dias ela precisa validar-se e afirmar para si mesma de que seus sonhos valem a pena.

Mulher tem medo de envelhecer, de perder o viço. Tem medo do seu amor partir, dos filhos irem embora, da vida perder o sentido já que toda ela foi dedicada aos outros. O corpo da mulher jovem, enquanto representação social da beleza, sofre muitas pressões, cobranças por uma perfeição inatingível. O corpo da mulher velha sofre ainda mais. É alvo do desprezo, como se a pele enrugada fosse capaz de apagar os seus desejos e encobrir a sua história. Não, não há do que se esconder. A velhice é uma dádiva. Para algumas é libertação, o auge da sua existência.

Se você é mulher e não se identificou com alguma ou todas as afirmações acima, meus parabéns! Provavelmente você já venceu batalhas que muitas de nós ainda estamos enfrentando. Existe uma distinção necessária a ser feita entre o que vem de dentro de nós, fruto de nossas experiências, reflexões e decisões, e o que nos é imposto de fora. Alguns temores se combatem internamente, lançando luz sobre o nosso lado mais obscuro. Outros se combatem coletivamente, na busca por uma sociedade mais justa e igualitária que nos coloque no mesmo patamar de oportunidades que os homens. A eles também deve ser concedido o direito a se sentir amedrontado, que não deveria ser considerado um atributo feminino. Afinal de contas, quem nunca sentiu medo?

No entanto, o enfrentamento é sim coisa de mulher! Talvez pela presença constante de tantos receios, as mulheres são marcadas muito mais pela coragem do que pela covardia. É a prática diária do conflito que nos confere a experiência. Observo aquelas mulheres à minha volta e cada uma está, à sua maneira, travando suas próprias batalhas. E vencendo. Seja por meio do seu trabalho, da sua voz, da sua escrita ou de suas lágrimas, as mulheres movem o mundo. A elas, dedico este texto e toda a minha admiração.



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