Inventando história: Medo da Chuva

O telefone da casa dos Seixas tocou. Era uma noite quente em Ipanema. Raul estava na cozinha, preparando um lanche. Edith, que estava sentada no sofá, vendo a “Discoteca do Chacrinha” na TV Tupi, levantou-se e atendeu a ligação. O casal estava estremecido desde o final de semana anterior, quando Raul não quis acompanhar a esposa na rotineira visita aos sogros. Todos perguntaram sobre o marido e Edith, mais uma vez, inventou uma desculpa qualquer para justificar a sua ausência.

Ao colocar o aparelho no ouvido, Edith ouviu uma voz feminina dizer “Alô”. Imediatamente a reconheceu. Era a voz de Glória, irmã do Jay, o guitarrista que tocava com Raul. Elas haviam se encontrado apenas umas duas vezes, mas Edith nunca se esqueceria daquela voz melosa. Muito menos teria esquecido da imagem que lhe ficou gravada: uma jovenzinha oferecida, que usava roupas decotadas e curtas e desfilava pelos estúdios onde o seu irmão e Raul tocavam. Ele já havia mencionado seu nome em algumas conversas, se referindo a ela como uma garota estranha. Estranho mesmo era ela ligar para ele às onze horas da noite.

Antes que Edith pudesse responder, Raul tomou o aparelho de sua mão, atendeu a ligação entre dentes e esticou o fio até a cozinha, onde continuou a preparar o sanduíche. Edith foi atrás, mas ele desligou sem que ela ouvisse o que falavam.

- O que essa mulher quer, Raul?

- Nada demais. Só uma informação de trabalho.

- A uma hora dessas? Trabalho?

- É sim, trabalho. Será que agora preciso pedir permissão para atender ao telefone?

- Não é questão de permissão. É questão de respeito. Ou será que você esqueceu que é casado, Raul?

- Não, não esqueci. Você não me deixa esquecer.

- Você quer esquecer? Você jurou! Jurou que ia me amar e respeitar, até que a morte nos separe! Diante de Deus e de todo mundo! Jurou que seria fiel. Agora está aí de conversinha com outra mulher?

- Eu não estou de conversinha. É sobre trabalho. Eu não aguento mais você me acusando!

- Não aguenta mais? Como assim não aguenta mais? O que você quer dizer com 'não aguento mais'?

- Eu quero dizer que eu não estou te traindo e não aguento mais ser acusado do que não fiz.

- Raul, você é meu marido! Nem ir na casa da mamãe você quer mais!

- Exatamente. Sou seu marido, não sou seu escravo! Eu tenho o direito de não ir se eu não quiser.

- Então vai ser assim? Você vai me deixar ir sozinha agora? Qual vai ser a desculpa que eu vou dar? As pessoas ficam perguntando de você.

- Não dá desculpas! Fala a verdade, que eu não quis ir.

- Vai todo mundo achar que nós não estamos bem juntos.

- Mas não é essa verdade, Edith?

- Todo casal passa por dificuldades. Isso é normal! Só não pode deixar que outras pessoas interfiram no casamento! Pedro e Luísa, por exemplo, andaram em crise, mas agora estão bem de novo. Vão até viajar. Superaram juntos.

- Superaram uma ova! Ontem mesmo eu encontrei o Pedro bêbado como uma gambá no Bar do Veloso, aqui pertinho. Quando me viu, abriu a cara a chorar. Sabe o que ele me disse? Que queria se separar, mas não tinha coragem! Se tem alguém que não me serve de exemplo é o Pedro!

- É, porque você é o valentão, o corajoso! Mas não tem coragem de assumir que está me traindo com essa Glória!

- Eu já falei várias vezes e vou repetir mais uma vez: eu não estou te traindo com a Glória nem com ninguém!

- Eu não gosto dela! Ela está apaixonada por você, eu sei. Eu sinto isso, Raul! Ela quer nos separar para ficar com você!

- Você está louca! Não é nada disso! Pára com essa desconfiança, senão eu vou embora!

- Você quer ir embora? Você quer me abandonar e jogar sete anos de casamento no lixo? Você não pode fazer isso!

- É? Não posso? Não posso por quê? Você não deixa, né? Eu estou cansado disso tudo, de você o tempo todo dizer o que eu posso e o que eu não posso fazer! Eu não casei pra isso!

- Você casou pra quê então, Raul?

- Casei porque te amava.

- Agora não ama mais?

- O meu amor por você mudou. Tudo mudou. A nossa vida mudou.

- Nós temos uma filha…

- É… E eu não posso mais fingir pra ela que está tudo bem. Eu vou embora.

- Não vá, Raul. Está chovendo...

Raul atravessou a soleira da porta em direção à rua. Sem olhar para trás, seguiu o seu caminho. Cruzou o portão, tendo o seu corpo e a sua alma lavados pela água que vinha do céu. No dia seguinte, assim que acordou no sofá da casa de um amigo, escreveu esta música:


Medo da chuva - Raul Seixas (1974)


É pena que você pense

Que eu sou seu escravo

Dizendo que eu sou seu marido

E não posso partir

Como as pedras imóveis na praia

Eu fico ao teu lado sem saber

Dos amores que a vida me trouxe

E eu não pude viver

Eu perdi o meu medo, o meu medo

O meu medo da chuva

Pois a chuva voltando pra terra

Traz coisas do ar

Aprendi o segredo, o segredo

O segredo da vida

Vendo as pedras que choram

Sozinhas no mesmo lugar

Eu não posso entender tanta gente

Aceitando a mentira

De que os sonhos desfazem

Aquilo que o padre falou

Porque quando eu jurei meu amor

Eu traí a mim mesmo

Hoje eu sei que ninguém nesse mundo

É feliz tendo amado uma vez, uma vez

Eu perdi o meu medo, o meu medo

O meu medo da chuva

Pois a chuva voltando pra terra

Traz coisas do ar

Aprendi o segredo, o segredo

O segredo da vida

Vendo as pedras que choram

Sozinhas no mesmo lugar

Vendo as pedras que choram

Sozinhas no mesmo lugar

Vendo as pedras que sonham

Sozinhas no mesmo lugar



PS.: Esta é uma grande viagem! Qualquer semelhança só pode ser mera coincidência! Os fatos são: Raul casou-se com Edith em 1967 e ficou com ela até 1974, quando se separaram. Tiveram juntos uma filha. "Medo da Chuva" foi gravada no LP "Gita", lançado no mesmo ano de sua separação. Em 1975, Raul casou-se com Glória, irmã do guitarrista Jay Anthony Vaquer, que tocava com Raul . O resto é invenção. Ou não!


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