Gatos e o telhado

O gato subiu no telhado. E ele brinca, com algum pequeno objeto. É com uma pedrinha. E talvez com a vida. Quem associou esta expressão à morte não teve a oportunidade de ver este gato subindo no telhado, como eu vejo agora. Ele não parece estar em perigo, ou prestes a “partir desta para uma melhor”. O gato, um ser bastante habilidoso na arte do equilíbrio, sequer vacila. Está seguro, saltitante, e se diverte num lugar que assusta a toda gente. Não é qualquer um, gato ou não, que lá daquela altura não se agarre ao que quer que seja, com medo de cair. Este gato não. Ele está lá como se estivesse em terra firme, brincando com a gravidade.

Eu, daqui do meu sofá, com meus pés fincados no chão, observo o felino, permeada de diferentes emoções. A primeira sensação, ao abrir as cortinhas nesta manhã, e vê-lo sobre o telhado do vizinho, foi de surpresa. Como é que aquele danadinho, tão pequenino, foi parar lá em cima? A resposta é óbvia: gatos são experts em escalar. Basta um estreito pedaço de pau para que eles alcancem o céu. E, neste dia repleto de neblina, neste momento em que a garoa densa poderia ser cortada com faca, o gatinho está concentrado em uma pequeniníssima pedrinha, pulando de telha em telha, sem qualquer preocupação.

Mas eu me preocupo. Eu temo por ele. Parece que está se desequilibrando naquela altura! Vai cair! Ou não. É só impressão minha. Não quero que o ditado se materialize sob meus olhos. Mas estou distante o suficiente para perceber o quanto a minha preocupação é vã. Independente dela, ele lá permanecerá. Vai brincar e saltar, alheio aos meus apelos silenciosos para que ele desça imediatamente. Ainda que me pusesse a gritar da janela, buscando advertí-lo do perigo, certamente continuaria ele a fazer o que quisesse. Gatos são assim: só fazem o que querem. De nada adianta repreendê-los ou até mesmo ordená-los. Gatos não obedecem a ordens.

Fixo o olhar no bichano. Como ele é pequeno, e também gracioso. Suas patinhas manipulando a pedrinha arrancam-me um sorriso. A cena não é trágica. É bela! Sua diversão é a protagonista. São tantas manobras e saltos imprevisíveis. Eu rio. Parece que ele também está a rir, a gargalhar. Quem não estaria, se conseguisse encontrar prazer no improvável? A autoconfiança nos deixa leves e capazes de nos equilibrarmos nas mais instáveis realidades. Onde alguns ficam paralisados de medo, outros buscam a alegria para se manterem de pé.

Observando o gatinho, quero ser como ele. Aprender a viver divertidamente no caos. Quero acreditar que subir no telhado tem seu risco, mas não é sinônimo de perecer. Ainda que pareça flerte com o perigo, que nossa atitude seja julgada como inconsequente ou ingênua, às vezes, o que precisamos é buscar a diversão no telhado. Enquanto estou aqui, viajando em meus pensamentos, vejo o gatinho se pondo em retirada. Ele desliza pela coluna, garras a postos, e devagar se esmera em descer dali. Cada pequeno avanço é feito com muito cuidado. Aí estava o maior desafio, o de saber sair das situações difíceis. É preciso desenvolver esta habilidade. Ou nascer gato.

Vejo ao longe aquele gatinho chegar ao chão, até que um outro gato chama a minha atenção. Este aqui, ao meu lado, está confortavelmente dormindo em meu sofá. Acomodado numa almofada, dorme calmo e tranqüilo. É mais velho que o gatinho aventureiro. Certamente já subiu em muitos telhados. Mas agora está aqui, no lar, sem saltos ou sobressaltos. Ele se espreguiça, e eu também... Ambos bocejamos. Há tempo para tudo. Saltar em telhados é bom, mas chega um momento em que dormir no sofá é ainda melhor.





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