Até a última folha

Descansando sobre a mesa, aguardei com paciência a escolha daquele que se tornaria o meu lugar. Ouvi o martelo atingir com força a cabeça que me sustentaria. Saberia ela o peso dos meus dias? As mãos que empunharam a ferramenta pesada ergueram-me com delicadeza, até a altura de seus olhos. Seus olhos... Já dependurado numa altitude em que só ela me alcançava, pude observá-los bem de perto. Traziam em si o brilho característico dos que são cheios de esperança e aquela umidade de quem derrama as dores do mundo inteiro. A mistura de beleza e melancolia me fez desejar ser eterno para testemunhar sua existência até o último dia. Mas sou o exato contrário, a tradução do efêmero, o lembrete da brevidade de tudo. E ela sabe disso.

Também parece saber a importância de cada oportunidade, quando diariamente se aproxima a me observar. Na verdade, sou eu que a observo e questiono em silêncio: fará valer a pena o meu desfolhar? O meio sorriso ou a rigidez dos lábios cerrados denunciam a intensidade com a qual serei tocado. Por vezes, sou apenas rabiscado, marcado em importâncias tão íntimas quanto definitivas. Em outros momentos, os dedos seguram firme a ponta da folhinha, a raiva se torna força e ela leva embora mais um pedaço de mim. Não lamento. Prefiro a emoção à indiferença. Triste seria permanecer inteiro.

Às vezes, ela passa por mim e, mergulhada em seus pensamentos, sequer me nota. Isso já aconteceu por algum tempo. Senti-me abandonado durante meses. Eu aqui, feito em tons de marrom e bege, combinando com a sua cozinha, desejei ser vermelho sangue para me destacar em sua parede e em viva cor chamar a sua atenção. Desejei ainda mais: que o tempo parasse para que ela se recordasse de me olhar. Tamanha foi a minha alegria em tê-la de volta, com caneta em punho, a me percorrer com os dedos e me marcar, assim como o tempo também lhe marca.

Além das datas, trouxe em mim delícias. Perdi a conta de quantas vezes os meninos subiram em cadeiras para salivarem diante do “Bolo de fubá” de janeiro, ou do “Frango delicioso” de fevereiro. Aos gritos, imploravam para que ela lhes preparasse os quitutes que eu os apresentava. Ela mandava que descessem e eu me deleitava. Tinha a chance de ensiná-la um pouco de culinária. E ela me mostrava como haveria de ser uma boa mãe.

Também testemunhei seus vazios, a permanência prolongada à mesa com o olhar perdido. Havia tardes em que as angústias tomavam lugar ao seu lado e preenchiam as horas com preocupações e lágrimas. Dali do alto da parede, eu me compadecia de suas dores.

Queria dizer-lhe mais que receitas e datas. Queria lembrar-lhe do tempo que passa, das eras que se findam para que outras se iniciem. Dos dolorosos términos e necessários recomeços. Sobre ciclos, sou catedrático. Sei ainda mais sobre devoção. Aprendi com os santos e seus dias. Há profunda beleza em se consumir até a última página. Quando o nosso tempo se finda, a missão é cumprida. Ou o contrário. Tudo precisa se renovar. Há que se arranjar outro calendário, novo em folha, para acompanhar os dias vindouros. Estes também são novos e nunca se repetem. Aí está o segredo: cada um tem a sua história. As folhas podem até ser arrancadas e se perderem, mas as experiências são únicas e habitam para sempre os corações daqueles que as viveram.






12 visualizações1 comentário

Posts recentes

Ver tudo