A vida e a arte

Quando eu era criança e ouvia alguém ser chamado de artista, imaginava aquela pessoa como um ser especial, alguém diferente dos outros mortais por possuir habilidades que eu considerava talvez mágicas. Artista era quem estava na TV, ou no picadeiro do circo que meus pais me levavam. Eu não conhecia de perto nenhum artista. Mas sonhava com isso.

Uma vez, a escola em que eu estudava organizou uma visita aos Estúdios Globo, para que os alunos participassem da plateia de um programa da Angélica. Nossa! Que sonho! Veria de pertinho vários artistas! Fui muitíssimo animada, acompanhada de outras crianças e adolescentes agarrados às suas máquinas fotográficas, devidamente abastecidas com rolos para incríveis 36 fotos!

Foi tudo muito divertido, muita brincadeira no ônibus e na plateia, mas não consegui atingir o meu objetivo. Fiquei num lugar muito distante do palco e me estiquei bastante para tentar capturar quem passava por lá. Foi o mais perto que eu cheguei de um artista naquele dia. Depois, ao revelar o rolo da câmera, fiquei ainda mais frustrada pois das 32 fotos que eu consegui, nenhuma delas dava pra ver nem a Angélica! Salvaram as fotos da minha turma tão querida e dos momentos divertidos que vivemos naquele dia.

Aos poucos, fui perdendo o encantamento por quem era chamado de artista. Durante os anos em que eu decidia o que seria quando crescesse - aqueles em que a gente passa a enxergar as necessidades reais de sobrevivência - a arte não era uma opção. Primeiro porque a única habilidade que eu tinha era o gosto por estudar. E para ser artista, eu acreditava que não era preciso ler livros, bastava ter talento. E, em segundo lugar, fui advertida que o artista, se não tiver nascido em berço de ouro, morre de fome!

Ainda assim, eu era amante da poesia. Passava horas lendo poemas, costumava rascunhar alguns em meus cadernos, e até participei de um festival. Também a dança me fascinava. A vida toda dancei! Fazia aulas de jazz quando criança e inúmeras apresentações no colégio. Quando adolescente, entrei num grupo de ballet, aprendi o clássico, o moderno, o contemporâneo e participei de uma companhia de dança. Foram vários espetáculos, em pequenos e grandes lugares. Eu me recordo de um solo que muito dancei em festivais, cuja trilha sonora era a música Beatriz, composta por Chico Buarque e Edu Lobo, na voz de Jorge Vercilo. Como eu era feliz dançando aquela música!

Mesmo a arte me circundando de tantas formas, e eu me identificando tanto com ela, eu não conseguia me ver especial como achava que deveria ser o artista. O que eu escrevia era banal. As minhas performances de dança, por mais apaixonadas que fossem, não se comparavam com aquelas que eu assistia das bailarinas magras, altas e brancas que eu tanto admirava. A arte não era pra mim.

Pensando assim, fui atrás do que me pareceu possível. Escolhi uma profissão, que a princípio eu nem sabia bem como era e entrei na universidade. Após anos de sacrifícios, me formei. Estudei bastante para concursos, fui trabalhar na minha área. Continuei cercada dos livros, buscando incansavelmente conhecimento. Aprendi a ser feliz como assistente social e ainda mais pesquisando sobre o envelhecimento.

Gente me encanta! Ouvir histórias passou a ser a minha atividade preferida. Quanto mais experiente for o contador, maior o deleite. Tenho aprendido muito com histórias de pessoas simples e comuns, mas que, com pouco ou nenhum estudo, carregam tamanha sabedoria de vida.

Uma das coisas que aprendi foi que a vida é pura arte! A forma com a qual encontramos saídas para as nossas dificuldades é fruto da mesma criatividade que possibilita a existência de tantas coisas belas e que chamamos de obras de arte. Tanto quanto sou apaixonada pelos quadros de Monet, fico impressionada com a capacidade que temos de ressignificar nossos sofrimentos e deles tirarmos ensinamentos. O prazer de ver um espetáculo de ballet é tão grande quanto o que sinto quando vejo um idoso sendo reabilitado pela fisioterapia, rindo de si mesmo por estar reaprendendo a andar.

E se a vida é arte e escrever é uma parte tão prazerosa da minha vida, ouso chamar-me de artista. Não aquele ser mágico que eu imaginava quando criança. Mas uma pessoa real, com seus incontáveis defeitos, feita de carne, osso e boletos, que se dispõe a lançar um olhar atento sobre as pessoas e procura, por meio da sua escrita, materializar a beleza de ser e existir.

Jardins de Monet, em Giverny (França)



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