A marca da mulher

Em toda a vida de Clara, nunca havia acontecido um dia como aquele. É claro que cada dia é um, mas a lida na roça tende a nos enganar. Às vezes os dias se repetem, mas este amanheceu esquisito, parecia atrasado. A menina já havia aberto seus olhos há muito tempo quando os primeiros raios de sol atravessaram as palhas do telhado e iluminaram a imagem de Nossa Senhora de Aparecida pendurada na parede de barro. Parecia até que a santa queria lembrar a Clara de que estava ali durante todo tempo, aguardando ser clamada por ela.

Depois de uma longa noite se contorcendo sobre a tarimba, Clara sentiu seu corpo muito dolorido, sobretudo as cadeiras. Não sabia o que havia com ela e relutou para levantar. Temia que estivesse com alguma doença que necessitasse tomar um gole das garrafadas de Vó Naninha. Já tinha visto dois cachorros morrerem depois de serem “medicados” com aquele líquido escuro, espesso e fedorento. Talvez este fosse o seu destino, a morte, que seria causada pela doença que a acometia ou pelo remédio que seria obrigada a tomar .

Chorando pelo seu fim, encolhida debaixo da colcha surrada que ganhara de herança da prima Noeli, Clara se perguntava que mal havia feito para merecer aquele castigo. Talvez fosse a paga pela língua afiada que sua mãe lhe acusava de ter. Também tinha tido aquela vez que ela passou de fininho debaixo da cerca do seu Quinca e roubou meia dúzia de goiabas do seu pomar.

- Valei-me, Nossa Senhora! Eu já tinha pedido perdão por este mal-feito! - implorava Clara, olhando para a imagem embotada na parede.

Certa de que não haveria saída para a sua situação, a menina ouviu o chamado de sua mãe.

- Levanta, Clara. Vá buscar o leite que o sol já está alto. - ordenou dona Irene, lá da beira do fogão de lenha.

A garota resolveu então se levantar e atender à sua mãe. Sabia bem que a chinela sempre canta no lombo de quem não obedece. Foi quando sentiu um líquido quente descer por entre as suas pernas. Levantou a colcha e viu um rio de sangue desaguar em suas roupas. Clara se desesperou. Confirmou que estava mesmo muito doente e talvez nem dali conseguisse sair. Ao invés de se pôr de pé, encolheu-se ainda mais, imaginando que a qualquer momento daria o seu último suspiro.

Estranhando a demora de Clara, que sempre se levantava animada para tirar o leite da vaca, dona Irene foi até o cômodo onde a família dormia e se aproximou do corpo encolhido da menina. Ouviu um gemido e resolveu levantar a ponta da colcha devagarinho para ver o que acontecia ali. Foi então que dona Irene se deparou com Clara chorando baixinho.

A mãe levou um susto.

- O que houve, Clara? Que bicho te mordeu? - indagou dona Irene.

- Mainha, eu vou morrer! Eu estou muito doente! - disse Clara, abrindo o berreiro.

- Mas, menina, pare de leseira! Com essa idade tu ainda tem muito o que trabalhar antes de morrer! Levante daí e vá agir a sua vida! - com as mãos nas cadeiras, a mãe deu o ultimato.

- Eu não posso, mainha. Não consigo! - bradou Clara, sem saber ao certo o que dizer à sua mãe.

Além das dores, a menina estava inundada de sentimentos estranhos. Estava com medo e queria pedir ajuda, mas se sentia envergonhada a ponto de não querer sequer que dona Irene mirasse seu rosto.

A mãe já estava perdendo a sua paciência quando segurou firmemente na ponta da colcha e puxou com força a fim de descobrir a filha. Foi então que viu a enorme mancha vermelha no pedaço de pano que forrava a tarimba onde Clara dormia. Olhou para as suas roupas de baixo e imediatamente compreendeu o ocorrido.

Lembrou-se de quando ela mesma viveu aquela situação, do medo que sentiu, do amparo que não teve. Sua mãe era uma mulher calada, endurecida pela lida na roça e não tinha tido tempo nem jeito para lhe explicar as coisas da vida. Na sua época, ela também achou que estava doente e só descobriu o que lhe acontecia muito tempo depois. Ainda que não tivesse estudo e não soubesse bem arrumar as palavras antes de dizê-las, resolveu fazer diferente com a filha.

Sem saber quem estava mais envergonhada, dona Irene sentou-se na beira da caminha, segurando a colcha enrubescida, e disse à sua filha:

- Tá vendo esse vermelho aqui, Clara? Ele é um sinal. Uma marca que muda pra sempre a vida da gente. É a marca da mulher. Você não está morrendo, minha filha. Na verdade, a sua vida começa agora. É tempo de abandonar as criancices e encarar a vida como pessoa adulta. Você ficou moça.

Clara não entendeu bem o que significavam aquelas palavras ditas por sua mãe, mas já se acalmou ao saber que sobreviveria. Dona Irene esquentou um pouco de água na chaleira, despejou no balde e levou para a filha se banhar. Enquanto a água caía sobre seu corpo e escorria por suas pernas, Clara percebeu que aquele acontecimento era seu, íntimo, uma coisa só dela. E sorriu. Era a primeira vez que se sentia assim, tão única, tão feminina. Deu-se conta de sua transformação e, como uma flor a desabrochar, sentiu a força da natureza em si mesma. Por mais que sentisse dor, que houvesse incômodo, Clara sentiu-se honrada. Ela era continuidade das que vieram antes. Agora também era uma delas, uma mulher.



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